domingo, 2 de fevereiro de 2020

Carta pra Julia n°2

Filha, 
faz pouco mais de 4 anos desde que te escrevi a última carta de amor.
Antes eu carregava muita coisa aqui dentro (inclusive você que já quase não cabia mais em meu ventre), agora sigo com uma imensidão de coisas aqui dentro e você nos meus braços (também já quase não cabendo mais).
Tudo anda muito doido e doído Ju. 
Já não somos mais 3 num mesmo lar a dois anos, e de lá pra cá tem sido dias difíceis e de infinitos recomeços, e de infinitas formas de amenizar qualquer coisa que possa te afetar.
Já foram muitas casas, idas e vindas, choros e risadas incontáveis e só uma coisa segue intocável por aqui: minha insegurança.
Em minha primeira carta abri todo meu coração em contar o quão cagada de medo eu tava de te por no mundo, e hoje te vendo nele sigo me tremendo de medo em te manter aqui.
Você é incrível Ju, e seu pai segue sendo (da forma e na forma dele, mas segue). Um dia te contaremos sob risadas todas as histórias que cativamos diariamente e sobre todo nosso amor e cuidado em te manter nessa loucura e te ensinar a viver.
Pra falar a verdade, eu ainda sou aprendiz de toda essa merda também, sabe Ju?.
Quatro anos desde que te pus nesse caos, e a quatro anos eu já
aprendi mais coisa do q em todos os meus 26 na terra, e sigo levando socos e bofetadas de realidade diariamente.
Carrego comigo uma culpa nas costas que não me deixa respirar, que me aperta as costelas e ocupa minha cama ao dormir todos os dias. Minhas culpas junto com minhas conquistas se fazem por mim e sós.
Hoje é um domingo de Fevereiro Ju, último dia dos 3 na semana em que você tá perto de mim.
Amanhã te devolvo a sua casa (e que soco no estômago verbalizar essa frase). Como assim? Sua casa na última carta era eu!
Fiz todas as escolhas até aqui pensando em você, em mim e num futuro que pra ser sincera eu não faço idéia de como vai ser, mas não quero correr o risco de não ter tentado até mesmo errar pra achar o acerto.
Todo dia acordo com minha insegurança pesando sobre mim. Todo dia me pergunto por que não errar em ser egoísta e "brigar" pra ter você só pra mim.
Todo dia me ponho nos seus 4 anos no mundo e enxergo ele pelo seus olhos e vejo tudo mais leve e colorido.
Te ver crescer e estar do seu lado é um caminho lindo Ju, mas esse caminho tem um chão quente e eu tô nele descalça acompanhando seu ritmo de andar.
Hoje entendo que tudo sempre será uma fase diante de toda nossa existência. Hoje te vejo chorar por não querer estar comigo e ao mesmo tempo te vejo chorar por uma tela de celular pra estar comigo. É assim mesmo filha... a gente leva um tempão pra ter certeza de onde quer estar e às vezes essa certeza nem dá as caras, e tá tudo bem.
Me perdoa por todas as vezes que falhei com você ou esperei de você algo que era unicamente pra cumprir minhas expectativas, eu também não cumpro as suas, eu sei.
Tenho sempre a impressão de estar fazendo tudo certo, mas no fim de todo o dia me deito e ouço nitidamente no pé do ouvido: Você não faz nada certo mesmo!
E adivinha? Ela mesma. Minha insegurança mais uma vez ocupando meu espaço, tirando meu fôlego, e de mãos dadas a minha ansiedade.
Filha, eu não sei se estou fazendo nem 1/3 da coisa certa na minha vida, seja com você nela todos os dias ou toda ela.
Sei dos meus acertos e sei das cabeçadas que me fizeram chegar neles. Eu não sei quando te farei outras cartas e nem quando você irá lê-las (e se irá), mas eu prometo seguir queimando meus pés pra estar do seu lado e pondo em linhas tortas toda essa confusão.
Eu te amo muito! Te amo mil milhões como diz você. Amanhã você volta pra sua casa...a mamãe não tem casa. A mamãe não faz idéia de quando terá uma do nosso jeito pra chamar de nossa, mas a mamãe vai ser pra sempre a sua casa (acho que falei isso na outra carta), mesmo com umas reformas por fazer.
Com amor,
Sua mãe de 2020.





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